Saturday, May 16, 2026

DARK HORSE: CAVALO AZARÃO OU CAVALO PRETO?

O professor Verner Hoefelmann fez uma excelente reflexao sobre o "Cavalo Azarao", o Dark Horse, filme sobre o Ex-presidente Jair Bolsonaro, mas comparando o messianismo que o bolsonarismo criou em torno desta figura, com o "Cavalo Preto" do Apocalipse, Vale a leitura e reflexao


DARK HORSE: CAVALO AZARÃO OU CAVALO PRETO? Cinema, messianismo político e crítica social no Apocalipse

A corrida eleitoral pela Presidência da República foi sacudida no último dia 13 de maio por mensagens e áudios divulgados pelo Intercept Brasil. O material revela uma relação de proximidade política, financeira e pessoal entre Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, centrada principalmente no financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, Vorcaro teria se comprometido a financiar a produção com cerca de 24 milhões de dólares (aproximadamente 134 milhões de reais à época). Apesar das informações desencontradas da produtora, parte dos recursos já teria sido transferida para estruturas ligadas à produção do filme nos Estados Unidos.
As mensagens indicam que a relação começou por intermédio de terceiros, mas evoluiu para um contato direto entre Flávio e Vorcaro. O senador aparece cobrando pagamentos atrasados, pressionando pela liberação de recursos e demonstrando preocupação com o andamento do filme. Em um dos áudios divulgados, afirma que o projeto atravessava um momento “decisivo” e que os atrasos deixavam a equipe “tensa”.
Em outra mensagem, pede que nomes importantes da produção, como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, não deixassem de receber pagamentos. O conteúdo divulgado sugere ainda elevado grau de intimidade entre os dois. Em uma das mensagens, Flávio escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.
A repercussão aumentou porque Vorcaro se encontra no centro de um escândalo financeiro envolvendo o Banco Master. O banqueiro é investigado por supostas fraudes bilionárias, corrupção e irregularidades financeiras, que teriam comprometido inclusive fundos de pensão estaduais e municipais. O caso ganhou peso político porque Flávio Bolsonaro havia negado anteriormente qualquer relação com Vorcaro. As mensagens, porém, apontam comunicação frequente e coordenação direta em torno do financiamento do filme.
O significado de Dark Horse
O filme Dark Horse ocupa o eixo central dessa relação. O projeto pretende retratar Bolsonaro como um outsider político e enfatizar especialmente o atentado sofrido durante a campanha presidencial de 2018. Nesse contexto, o financiamento milionário do longa tornou-se o principal ponto de conexão entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro revelado pelas mensagens.
A expressão inglesa "dark horse" surgiu no universo das corridas de cavalo, na Inglaterra do século XIX. Literalmente significa “cavalo escuro” ou “cavalo preto”, mas seu sentido idiomático é diferente: refere-se a um competidor pouco conhecido, improvável ou subestimado que surpreende os favoritos e vence a disputa. A ideia era simples: em algumas corridas, certos cavalos permaneciam praticamente ignorados pelo público ou escondiam seu verdadeiro potencial. Quando venciam inesperadamente, tornavam-se os dark horses.
A escolha do título procura reforçar precisamente essa narrativa: Bolsonaro como um “azarão” político — alguém desacreditado pelo establishment, sem apoio das estruturas tradicionais de poder, mas impulsionado pelo apoio popular e dramaticamente projetado ao centro da eleição após o atentado sofrido em Juiz de Fora em 2018.
Jim Caviezel e a construção de um imaginário messiânico
A escalação de Jim Caviezel para interpretar Jair Bolsonaro possui, nesse contexto, forte carga simbólica e política. Caviezel ficou mundialmente associado à representação de Jesus no filme A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson. Sua imagem permanece profundamente ligada, sobretudo entre públicos cristãos conservadores, às ideias de sofrimento, martírio, perseguição e redenção.
Por isso, muitos observadores interpretaram sua escalação como parte de uma tentativa deliberada de conferir ao personagem Jair Messias uma dimensão providencial. O filme parece querer construir uma leitura quase messiânica da trajetória de Bolsonaro. A facada deixa de ser apenas um atentado político e passa a funcionar narrativamente como evento de transfiguração: o candidato torna-se símbolo nacional, sobrevivente perseguido, líder preservado por um propósito superior.
Nesse contexto, Caviezel funciona como poderoso recurso simbólico. Sua associação com figuras de sacrifício e redenção fortalece a ideia de um líder “escolhido”, alguém cuja trajetória política adquire contornos de missão histórica. O atentado de 6 de setembro de 2018 ocupa papel central nessa construção dramática. O longa aparentemente tratará o episódio não apenas como crime político, mas como o momento decisivo de transformação do candidato em herói nacional.
Diversas reportagens descrevem o filme como uma produção de tom “heroico”, épico ou quase hagiográfico. O lançamento previsto para setembro, em plena campanha eleitoral, reforça a percepção de que não se trata apenas de uma cinebiografia convencional, mas de uma peça cultural inserida diretamente na disputa política contemporânea.
O “cavalo preto” do Apocalipse
Ao pensar no título Dark Horse, é difícil não recordar que a tradição bíblica também conhece um “cavalo preto”. O texto aparece em Apocalipse 6.5-6, na abertura dos sete selos.
O texto descreve o surgimento do terceiro cavalo do famoso quadro dos quatro cavaleiros do Apocalipse da seguinte maneira: “Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: ‘Vem!’ Então vi, e eis um cavalo preto, e o seu cavaleiro com uma balança na mão. E ouvi uma voz do meio dos quatro seres viventes dizendo: ‘Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.”
A cena evoca claramente o contexto histórico das comunidades cristãs do final do primeiro século. O mundo romano vivia crises agrícolas recorrentes, concentração fundiária, especulação econômica e pesados impostos imperiais. Pequenos agricultores frequentemente perdiam suas terras e mergulhavam na pobreza. O texto provavelmente dialoga com experiências concretas de opressão econômica vividas pelos cristãos da Ásia Menor, destinatários do Apocalipse.
O livro não trata primariamente do “fim do mundo”, mas da denúncia de sistemas históricos de dominação. O cavalo preto revela que a injustiça econômica também é manifestação do mal na história. A cor preta associa-se ao luto, à miséria e à devastação. A balança na mão do cavaleiro indica racionamento de alimentos: em tempos de escassez, os grãos deixam de ser vendidos abundantemente e passam a ser pesados cuidadosamente.
O denário era o salário diário de um trabalhador comum no Império Romano. O problema é que “uma medida de trigo” (χοῖνιξ) representava aproximadamente a quantidade mínima necessária para alimentar uma única pessoa por um dia. Em outras palavras: um trabalhador precisaria gastar o salário inteiro apenas para sobreviver — sem alimentar esposa, filhos ou outros membros da casa.
A cevada, por sua vez, era alimento inferior, frequentemente associado às classes mais pobres e até à alimentação animal. O quadro descrito é, portanto, de inflação extrema, desigualdade e insegurança alimentar.
“Não danifiques o azeite e o vinho”
A frase final do texto é talvez a mais perturbadora: “não danifiques o azeite e o vinho”. Muitos estudiosos entendem que ela denuncia uma economia profundamente desigual. Enquanto os alimentos básicos tornam-se inacessíveis ao povo, os produtos consumidos pelas elites permanecem preservados.
Há aqui uma crítica social contundente: os pobres passam fome, enquanto os bens dos ricos continuam protegidos. O Apocalipse denuncia um sistema econômico no qual a abundância permanece concentrada no topo da sociedade, enquanto a base experimenta precarização crescente.
Quando o terceiro cavaleiro é lido em conjunto com os demais, percebe-se uma sequência histórica impressionante:
1. conquista e dominação;
2. guerra e violência;
3. fome e crise econômica;
4. morte.
O Apocalipse, portanto, observa a história humana com enorme realismo. Violência política produz guerra; guerra produz escassez; escassez produz morte.
O Apocalipse contra o triunfalismo político
Essa leitura também desafia formas de teologia triunfalista frequentemente presentes no discurso político-religioso contemporâneo. O Apocalipse não oferece legitimação sagrada para líderes fortes nem transforma governantes em figuras messiânicas. Ao contrário: o livro é profundamente desconfiado diante da fusão entre poder político, propaganda simbólica e devoção religiosa.
O centro da visão apocalíptica não é o herói armado, o governante perseguido ou o líder providencial. O centro é o Cordeiro sacrificado. O poder de Deus se manifesta não na glorificação da força política, mas na denúncia da violência, da exploração e da idolatria do poder.
Por isso, talvez exista uma ironia involuntária no título Dark Horse. Enquanto o filme aparentemente procura apresentar Bolsonaro como o “azarão” improvável que triunfa contra o sistema, o imaginário bíblico do “cavalo preto” aponta em direção muito diferente: fome, concentração de riqueza, sofrimento popular e crítica radical às estruturas de dominação.
Entre propaganda e profecia
O debate em torno de Dark Horse ultrapassa o cinema. O filme parece participar de uma disputa mais ampla pelo imaginário religioso e político brasileiro. Sua narrativa procura converter um personagem político em símbolo providencial, reinterpretando acontecimentos históricos sob a linguagem do martírio, da perseguição e da redenção nacional.
Mas o Apocalipse oferece uma pergunta desconfortável a qualquer projeto político que busque revestir-se de linguagem messiânica: quem paga o preço do poder? Quem permanece protegido enquanto o povo enfrenta escassez? Quem controla os símbolos religiosos usados para legitimar determinadas narrativas históricas?
O “cavalo preto” do Apocalipse não glorifica líderes. Ele denuncia sistemas. Não celebra vencedores improváveis. Revela estruturas de desigualdade. Não produz culto político. Produz discernimento crítico.
Talvez seja justamente essa a reflexão mais necessária diante de obras como Dark Horse: distinguir cuidadosamente entre fé e propaganda, entre esperança e idolatria política, entre espiritualidade e construção de mitos de poder. A igreja não pode furtar-se a essa reflexão, sob pena de trair a sua vocação.

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