Thursday, September 24, 2026

Quando a fé se ajoelha diante do poder

Uma crítica luterana à reação de setores evangélicos ao documento da CNBB para as eleições de 2026

Por Armin Andreas Hollas, pastor luterano 


Há algo profundamente preocupante quando um documento religioso que pede honestidade, combate à corrupção, cuidado com os pobres e responsabilidade pública é recebido por setores evangélicos como uma ameaça ideológica. Não porque a Igreja esteja acima de qualquer crítica, mas porque deveríamos perguntar, antes de acusar: o que, exatamente, há de contrário ao Evangelho em exigir justiça, integridade e respeito à dignidade humana?

A reação de setores da direita evangélica brasileira ao documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para as eleições de 2026 merece mais do que uma disputa de rótulos partidários. Ela nos obriga a enfrentar uma questão teológica incômoda: o que acontece quando a fidelidade a um projeto político começa a falar mais alto do que a fidelidade à própria Escritura?

Escrevo como pastor luterano. Minha tradição não me autoriza a transformar o púlpito em palanque, mas tampouco me permite usar a neutralidade religiosa como desculpa para o silêncio diante de questões que dizem respeito à justiça, à dignidade humana e ao cuidado com o próximo.

A política não é o Evangelho. Mas as pessoas que sofrem as consequências das decisões políticas são o nosso próximo.

E isso deveria bastar para que a Igreja se recusasse a permanecer indiferente.

O escândalo de pedir justiça

A Nota dos Bispos do Regional Centro-Oeste da CNBB para as Eleições Gerais de 2026 começa com uma passagem de Romanos 12,2: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente”.

O documento afirma que a Igreja não se identifica com partidos nem se vincula a projetos de poder. Sua missão, segundo o próprio texto, é anunciar Jesus Cristo e formar a consciência dos fiéis.

Em seguida, apresenta critérios para o discernimento eleitoral: atenção aos pobres e esquecidos, compromisso com a integridade dos candidatos, combate à corrupção e às notícias falsas, propostas consistentes para saúde, educação, segurança, trabalho e renda, proteção da vida humana e cuidado com a criação.

Diante disso, alguns setores evangélicos reagiram acusando a Igreja Católica de favorecer a esquerda e fazer campanha para Lula.

Mas a pergunta permanece: desde quando cuidar dos pobres se tornou propriedade ideológica de um partido? Desde quando combater a corrupção passou a ser uma pauta suspeita? E em que momento a preocupação com o meio ambiente se tornou incompatível com a fé cristã?

É perfeitamente legítimo discutir propostas, questionar políticas públicas e discordar de determinadas posições da CNBB. Nenhuma instituição religiosa está dispensada da crítica.

O que não se sustenta é a ideia de que mencionar os pobres, exigir honestidade ou denunciar a manipulação religiosa seja, por si só, uma declaração de apoio a um partido.

Quando a simples defesa da justiça é interpretada como provocação ideológica, talvez seja necessário examinar não apenas o documento, mas também a maneira como estamos acostumados a ler o mundo.

Se a preocupação com os pobres parece uma ameaça política, o problema pode estar menos nos pobres do que na teologia que deixou de reconhecê-los como próximo.

Lutero não autorizou a sacralização da política 


A tradição luterana oferece instrumentos importantes para compreender esse conflito.

Lutero distinguiu os dois modos pelos quais Deus governa o mundo: o Reino da Graça, no qual atua por meio da Palavra e do Evangelho, e o Reino do Mundo, no qual atua por meio das autoridades civis, da lei e dos instrumentos necessários à preservação da justiça e da ordem.

Essa distinção não significa que os cristãos devam abandonar a política. A Confissão de Augsburgo, em seu Artigo XVI, reconhece a legitimidade das autoridades civis e afirma que os cristãos podem ocupar cargos públicos e exercer responsabilidades políticas.

Portanto, não há contradição necessária entre ser cristão e participar da vida pública.

A contradição aparece quando a política deixa de ser entendida como vocação humana e passa a reivindicar uma espécie de legitimidade divina incontestável.

Um político cristão pode defender suas convicções religiosas. Pode participar de um partido, apresentar propostas e disputar eleições. Mas não pode transformar sua fé em certificado de infalibilidade.

Um partido não é uma igreja. Um presidente não é um messias. Uma eleição não é a consumação do Reino de Deus.

A política pertence ao campo das decisões humanas, e decisões humanas precisam ser examinadas, questionadas e corrigidas.

Quando uma liderança religiosa apresenta determinado projeto político como se ele representasse necessariamente a vontade de Deus, a distinção luterana entre os dois reinos começa a desaparecer.

E, quando isso acontece, a religião corre o risco de deixar de ser uma voz crítica diante do poder para se tornar uma de suas ferramentas de legitimação.

A Bíblia não é um departamento de propaganda

Há outra distinção que a teologia luterana considera essencial: Lei e Evangelho.

A Lei denuncia o pecado, confronta a injustiça e revela aquilo que Deus exige de nós. O Evangelho anuncia o perdão, a graça e a reconciliação que recebemos em Cristo.

Essa distinção nos impede de reduzir a fé a um conjunto de exigências morais ou a um instrumento para justificar nossas próprias convicções.

Entretanto, quando a Bíblia é lida exclusivamente a partir de preferências políticas previamente estabelecidas, ela corre o risco de perder sua capacidade de nos confrontar.

Passamos a selecionar os textos que confirmam nossas posições e a relativizar aqueles que as colocam em questão.

A corrupção do adversário se torna imperdoável; a do aliado, uma questão secundária. A pobreza é denunciada quando serve ao discurso político, mas pode ser esquecida quando exige mudanças concretas. A defesa da vida é proclamada com vigor em determinadas circunstâncias, enquanto outras formas de sofrimento humano recebem atenção muito menor.

Essa seletividade não é um problema exclusivo da direita, nem está limitada a uma única tradição religiosa. Qualquer grupo político ou religioso pode cair nessa armadilha.

Mas é precisamente por isso que precisamos perguntar: estamos permitindo que a Escritura julgue nossas escolhas ou estamos usando a Escritura para proteger nossas escolhas de qualquer julgamento?

A Bíblia não foi dada à Igreja para funcionar como departamento de propaganda de partido algum.

Ela não existe para abençoar automaticamente nossas preferências. Existe também para nos chamar ao arrependimento.

O Cristo crucificado não é um símbolo de vitória eleitoral

A distinção entre teologia da cruz e teologia da glória ocupa um lugar central no pensamento de Lutero.

A teologia da glória procura Deus nas manifestações de poder, sucesso, prestígio e vitória. A teologia da cruz, por sua vez, nos conduz ao lugar em que Deus se revela de maneira surpreendente: na fraqueza e no sofrimento de Cristo crucificado.

Essa diferença deveria transformar profundamente nossa relação com a política.

Uma vitória eleitoral não é prova de aprovação divina. O sucesso de um movimento político não significa que Deus tenha assumido suas bandeiras. A derrota de um candidato tampouco significa que Deus tenha abandonado seus eleitores.

A cruz nos impede de confundir o poder humano com a glória de Deus.

E nos impede, sobretudo, de procurar Cristo apenas entre os vencedores.

O Jesus dos Evangelhos se aproxima dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e daqueles que não encontram lugar nas estruturas de prestígio de seu tempo. Ele confronta a hipocrisia religiosa e questiona a maneira como o poder é exercido.

Não podemos transformar esse Jesus em um simples porta-voz de nossas preferências políticas.

Um Cristo moldado à imagem de nossos aliados deixa de nos confrontar. Torna-se um espelho conveniente de nossas próprias convicções.

Mas o Cristo crucificado não existe para confirmar nossos projetos de poder.

Ele nos chama a segui-lo.

E seguir Jesus significa, entre outras coisas, aprender a reconhecer o próximo onde nossa ideologia talvez preferisse não olhar.

A vocação política não é uma missão messiânica

A teologia luterana da vocação reconhece que o serviço ao próximo pode acontecer em diferentes ocupações e responsabilidades. Isso inclui a atividade política.

Governar, legislar, administrar recursos públicos e promover a justiça são tarefas importantes. Quando exercidas com responsabilidade, podem contribuir para o bem comum.

Mas a vocação política não transforma ninguém em salvador da nação.

O político cristão não recebe autorização para falar em nome de Deus em todas as suas decisões. Continua sendo uma pessoa humana, sujeita ao erro e responsável por seus atos.

Por isso, a linguagem de guerra espiritual aplicada indiscriminadamente às disputas eleitorais merece especial cautela.

Quando uma eleição é apresentada como uma batalha definitiva entre o bem e o mal, o adversário político deixa de ser alguém com quem se pode discordar e passa a ser tratado como inimigo da fé.

O debate democrático perde espaço. A crítica se torna suspeita. A lealdade partidária começa a ocupar o lugar do discernimento moral.

E a religião, em vez de ajudar a sociedade a reconhecer os limites do poder, pode acabar contribuindo para sua sacralização.

O cristão não é chamado a estabelecer o Reino de Deus pela força do Estado. É chamado a servir ao próximo em sua vocação, inclusive quando essa vocação envolve responsabilidades públicas.

Amós não perguntou a filiação partidária dos pobres

Os profetas bíblicos não permitiram que a prática religiosa servisse de disfarce para a injustiça.

Amós denunciou uma sociedade em que o culto continuava acontecendo enquanto os pobres eram esmagados e o direito era corrompido.

Sua palavra continua sendo uma das mais contundentes advertências contra a separação entre religião e responsabilidade social:

“Corra o direito como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5,24).

O profeta não condicionou a justiça à filiação partidária de quem sofria.

A fome não pergunta em quem a pessoa votou. A falta de moradia não distingue esquerda e direita. A corrupção não se torna aceitável porque é praticada por alguém que compartilha nossas convicções religiosas.

Isso não significa que a Bíblia forneça respostas prontas para todas as questões econômicas e administrativas contemporâneas. Não fornece.

As propostas políticas precisam ser examinadas com conhecimento, debate e responsabilidade. Seus resultados devem ser avaliados, e suas limitações precisam ser reconhecidas.

Mas a complexidade das políticas públicas não elimina a responsabilidade moral de perguntar quem sofre suas consequências.

Quando a CNBB chama a atenção para a saúde, a educação, a segurança, o trabalho, a renda e a superação da pobreza, aborda questões que afetam diretamente a vida das pessoas.

Discutir como enfrentá-las é legítimo. Transformar a simples preocupação com elas em motivo automático de acusação ideológica é outra coisa.

A Igreja não precisa apresentar uma plataforma partidária para lembrar que a justiça importa.

Quando a fé é sequestrada

O crescimento de discursos religiosos que associam a conquista do poder político à realização de um projeto divino exige discernimento.

Em determinados setores influenciados pela chamada teologia do domínio, a participação política pode assumir um significado que vai além do serviço público: torna-se parte de uma estratégia de hegemonia religiosa e cultural.

É necessário reconhecer a diversidade do mundo evangélico brasileiro. Nem todos os conservadores compartilham essas ideias, e nem toda participação política de inspiração cristã representa uma tentativa de impor a fé à sociedade.

Ainda assim, existe um perigo real sempre que a religião passa a ser mobilizada para proteger um projeto político de questionamentos.

Nesse cenário, documentos religiosos deixam de ser avaliados pelo que efetivamente dizem. São julgados conforme sua proximidade ou distância em relação a determinado campo político.

O resultado é uma inversão preocupante: em vez de a fé examinar a política, a política passa a determinar quais partes da fé podem ser ouvidas.

A Escritura se torna seletiva. A consciência fica subordinada à lealdade. E o Evangelho corre o risco de ser reduzido a uma linguagem religiosa destinada a mobilizar eleitores.

A pergunta que precisamos fazer não é apenas se a Igreja está sendo usada por algum partido.

É também se estamos permitindo que nossas preferências políticas determinem aquilo que conseguimos ouvir quando a Palavra de Deus nos confronta.

O arrependimento começa em casa

Como pastor luterano, não escrevo estas linhas para reivindicar superioridade moral sobre católicos, pentecostais, evangélicos conservadores ou qualquer outro grupo.

A Igreja inteira precisa examinar sua relação com o poder. Nenhuma tradição cristã está imune à tentação de confundir seus interesses com a vontade de Deus.

A teologia luterana nos recorda que somos simultaneamente justos e pecadores. Isso vale para cada um de nós, para nossas comunidades e para nossas instituições.

Por isso, a crítica à instrumentalização política da fé precisa começar também dentro de nossas próprias igrejas.

Não basta denunciar a manipulação religiosa quando ela acontece entre nossos adversários. Precisamos reconhecê-la quando aparece entre nossos aliados, em nossas comunidades e até em nossos próprios discursos.

Não basta exigir honestidade dos políticos de quem discordamos. A mesma exigência deve valer para aqueles em quem depositamos nossa confiança.

Não basta falar da dignidade humana quando isso confirma nossas convicções. Precisamos estar dispostos a defender essa dignidade também quando ela nos desafia.

O arrependimento cristão não é uma arma para condenar os outros. É, antes de tudo, o reconhecimento de que também nós precisamos ser confrontados pela Palavra.

A cruz acima dos projetos de poder

A reação de setores da direita evangélica ao documento da CNBB revela uma questão que ultrapassa as eleições de 2026: a dificuldade de preservar a liberdade da consciência cristã diante da pressão das lealdades políticas.

Uma Igreja fiel ao Evangelho não precisa ser partidária para ser profética.

Não precisa apoiar um candidato para denunciar a corrupção. Não precisa aderir a uma ideologia para defender os pobres. Não precisa transformar suas convicções em programa de governo para lembrar às autoridades que o poder tem limites e que a justiça importa.

A Igreja pode dialogar com diferentes correntes políticas, reconhecer contribuições concretas e criticar decisões equivocadas. Mas não deve entregar sua consciência a nenhum projeto de poder.

Nenhum partido é o Reino de Deus.

Nenhum governante é o Cristo que morreu e ressuscitou.

Nenhuma eleição é a batalha final da história da salvação.

A cruz nos chama a desconfiar de toda pretensão humana de poder absoluto, inclusive daquela que se apresenta revestida de linguagem religiosa.

E nos chama a reconhecer que a fidelidade cristã não se mede pela proximidade com os vencedores, mas pela disposição de seguir Cristo no caminho do serviço, da verdade e do amor ao próximo.

Que a Igreja no Brasil, católica e evangélica, luterana e pentecostal, possa recuperar a liberdade de consciência necessária para examinar criticamente todos os projetos políticos, inclusive aqueles que parecem falar em seu nome.

Que possamos distinguir os dois reinos sem abandonar nossas responsabilidades no mundo, preservar a distinção entre Lei e Evangelho sem torná-la uma abstração e redescobrir a teologia da cruz como crítica permanente à sedução do poder.

E que, diante das eleições de 2026, não permitamos que slogans partidários ocupem o lugar do discernimento cristão.

A palavra de Amós continua diante de nós, não como propriedade de uma ideologia, mas como uma exigência que alcança todos os que invocam o nome de Deus:

“Corra o direito como as águas, e a justiça como um ribeiro perene.”

 



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