Uma crítica luterana à reação de setores evangélicos ao documento da CNBB para as eleições de 2026
Por Armin Andreas Hollas, pastor luterano
Há algo
profundamente preocupante quando um documento religioso que pede honestidade,
combate à corrupção, cuidado com os pobres e responsabilidade pública é
recebido por setores evangélicos como uma ameaça ideológica. Não porque a
Igreja esteja acima de qualquer crítica, mas porque deveríamos perguntar, antes
de acusar: o que, exatamente, há de contrário ao Evangelho em exigir justiça,
integridade e respeito à dignidade humana?
A reação de
setores da direita evangélica brasileira ao documento da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) para as eleições de 2026 merece mais do que uma
disputa de rótulos partidários. Ela nos obriga a enfrentar uma questão
teológica incômoda: o que acontece quando a fidelidade a um projeto político
começa a falar mais alto do que a fidelidade à própria Escritura?
Escrevo
como pastor luterano. Minha tradição não me autoriza a transformar o púlpito em
palanque, mas tampouco me permite usar a neutralidade religiosa como desculpa
para o silêncio diante de questões que dizem respeito à justiça, à dignidade
humana e ao cuidado com o próximo.
A política
não é o Evangelho. Mas as pessoas que sofrem as consequências das decisões
políticas são o nosso próximo.
E isso
deveria bastar para que a Igreja se recusasse a permanecer indiferente.
O
escândalo de pedir justiça
A Nota dos
Bispos do Regional Centro-Oeste da CNBB para as Eleições Gerais de 2026 começa
com uma passagem de Romanos 12,2: “Não vos conformeis com este mundo, mas
transformai-vos pela renovação da mente”.
O documento
afirma que a Igreja não se identifica com partidos nem se vincula a projetos de
poder. Sua missão, segundo o próprio texto, é anunciar Jesus Cristo e formar a
consciência dos fiéis.
Em seguida,
apresenta critérios para o discernimento eleitoral: atenção aos pobres e
esquecidos, compromisso com a integridade dos candidatos, combate à corrupção e
às notícias falsas, propostas consistentes para saúde, educação, segurança,
trabalho e renda, proteção da vida humana e cuidado com a criação.
Diante
disso, alguns setores evangélicos reagiram acusando a Igreja Católica de
favorecer a esquerda e fazer campanha para Lula.
Mas a
pergunta permanece: desde quando cuidar dos pobres se tornou propriedade
ideológica de um partido? Desde quando combater a corrupção passou a ser uma
pauta suspeita? E em que momento a preocupação com o meio ambiente se tornou
incompatível com a fé cristã?
É
perfeitamente legítimo discutir propostas, questionar políticas públicas e
discordar de determinadas posições da CNBB. Nenhuma instituição religiosa está
dispensada da crítica.
O que não
se sustenta é a ideia de que mencionar os pobres, exigir honestidade ou
denunciar a manipulação religiosa seja, por si só, uma declaração de apoio a um
partido.
Quando a
simples defesa da justiça é interpretada como provocação ideológica, talvez
seja necessário examinar não apenas o documento, mas também a maneira como
estamos acostumados a ler o mundo.
Se a
preocupação com os pobres parece uma ameaça política, o problema pode estar
menos nos pobres do que na teologia que deixou de reconhecê-los como próximo.
Lutero não autorizou a sacralização da política
A tradição
luterana oferece instrumentos importantes para compreender esse conflito.
Lutero
distinguiu os dois modos pelos quais Deus governa o mundo: o Reino da Graça, no
qual atua por meio da Palavra e do Evangelho, e o Reino do Mundo, no qual atua
por meio das autoridades civis, da lei e dos instrumentos necessários à
preservação da justiça e da ordem.
Essa
distinção não significa que os cristãos devam abandonar a política. A Confissão
de Augsburgo, em seu Artigo XVI, reconhece a legitimidade das autoridades civis
e afirma que os cristãos podem ocupar cargos públicos e exercer
responsabilidades políticas.
Portanto,
não há contradição necessária entre ser cristão e participar da vida pública.
A
contradição aparece quando a política deixa de ser entendida como vocação
humana e passa a reivindicar uma espécie de legitimidade divina incontestável.
Um político
cristão pode defender suas convicções religiosas. Pode participar de um
partido, apresentar propostas e disputar eleições. Mas não pode transformar sua
fé em certificado de infalibilidade.
Um partido
não é uma igreja. Um presidente não é um messias. Uma eleição não é a
consumação do Reino de Deus.
A política
pertence ao campo das decisões humanas, e decisões humanas precisam ser
examinadas, questionadas e corrigidas.
Quando uma
liderança religiosa apresenta determinado projeto político como se ele
representasse necessariamente a vontade de Deus, a distinção luterana entre os
dois reinos começa a desaparecer.
E, quando
isso acontece, a religião corre o risco de deixar de ser uma voz crítica diante
do poder para se tornar uma de suas ferramentas de legitimação.
A Bíblia
não é um departamento de propaganda
Há outra
distinção que a teologia luterana considera essencial: Lei e Evangelho.
A Lei
denuncia o pecado, confronta a injustiça e revela aquilo que Deus exige de nós.
O Evangelho anuncia o perdão, a graça e a reconciliação que recebemos em
Cristo.
Essa
distinção nos impede de reduzir a fé a um conjunto de exigências morais ou a um
instrumento para justificar nossas próprias convicções.
Entretanto,
quando a Bíblia é lida exclusivamente a partir de preferências políticas
previamente estabelecidas, ela corre o risco de perder sua capacidade de nos
confrontar.
Passamos a
selecionar os textos que confirmam nossas posições e a relativizar aqueles que
as colocam em questão.
A corrupção
do adversário se torna imperdoável; a do aliado, uma questão secundária. A
pobreza é denunciada quando serve ao discurso político, mas pode ser esquecida
quando exige mudanças concretas. A defesa da vida é proclamada com vigor em
determinadas circunstâncias, enquanto outras formas de sofrimento humano
recebem atenção muito menor.
Essa
seletividade não é um problema exclusivo da direita, nem está limitada a uma
única tradição religiosa. Qualquer grupo político ou religioso pode cair nessa
armadilha.
Mas é
precisamente por isso que precisamos perguntar: estamos permitindo que a
Escritura julgue nossas escolhas ou estamos usando a Escritura para proteger
nossas escolhas de qualquer julgamento?
A Bíblia
não foi dada à Igreja para funcionar como departamento de propaganda de partido
algum.
Ela não
existe para abençoar automaticamente nossas preferências. Existe também para
nos chamar ao arrependimento.
O Cristo
crucificado não é um símbolo de vitória eleitoral
A distinção
entre teologia da cruz e teologia da glória ocupa um lugar central no
pensamento de Lutero.
A teologia
da glória procura Deus nas manifestações de poder, sucesso, prestígio e
vitória. A teologia da cruz, por sua vez, nos conduz ao lugar em que Deus se
revela de maneira surpreendente: na fraqueza e no sofrimento de Cristo
crucificado.
Essa
diferença deveria transformar profundamente nossa relação com a política.
Uma vitória
eleitoral não é prova de aprovação divina. O sucesso de um movimento político
não significa que Deus tenha assumido suas bandeiras. A derrota de um candidato
tampouco significa que Deus tenha abandonado seus eleitores.
A cruz nos
impede de confundir o poder humano com a glória de Deus.
E nos
impede, sobretudo, de procurar Cristo apenas entre os vencedores.
O Jesus dos
Evangelhos se aproxima dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e daqueles
que não encontram lugar nas estruturas de prestígio de seu tempo. Ele confronta
a hipocrisia religiosa e questiona a maneira como o poder é exercido.
Não podemos
transformar esse Jesus em um simples porta-voz de nossas preferências
políticas.
Um Cristo
moldado à imagem de nossos aliados deixa de nos confrontar. Torna-se um espelho
conveniente de nossas próprias convicções.
Mas o
Cristo crucificado não existe para confirmar nossos projetos de poder.
Ele nos
chama a segui-lo.
E seguir
Jesus significa, entre outras coisas, aprender a reconhecer o próximo onde
nossa ideologia talvez preferisse não olhar.
A
vocação política não é uma missão messiânica
A teologia
luterana da vocação reconhece que o serviço ao próximo pode acontecer em
diferentes ocupações e responsabilidades. Isso inclui a atividade política.
Governar,
legislar, administrar recursos públicos e promover a justiça são tarefas
importantes. Quando exercidas com responsabilidade, podem contribuir para o bem
comum.
Mas a
vocação política não transforma ninguém em salvador da nação.
O político
cristão não recebe autorização para falar em nome de Deus em todas as suas
decisões. Continua sendo uma pessoa humana, sujeita ao erro e responsável por
seus atos.
Por isso, a
linguagem de guerra espiritual aplicada indiscriminadamente às disputas
eleitorais merece especial cautela.
Quando uma
eleição é apresentada como uma batalha definitiva entre o bem e o mal, o
adversário político deixa de ser alguém com quem se pode discordar e passa a
ser tratado como inimigo da fé.
O debate
democrático perde espaço. A crítica se torna suspeita. A lealdade partidária
começa a ocupar o lugar do discernimento moral.
E a
religião, em vez de ajudar a sociedade a reconhecer os limites do poder, pode
acabar contribuindo para sua sacralização.
O cristão
não é chamado a estabelecer o Reino de Deus pela força do Estado. É chamado a
servir ao próximo em sua vocação, inclusive quando essa vocação envolve
responsabilidades públicas.
Amós não
perguntou a filiação partidária dos pobres
Os profetas
bíblicos não permitiram que a prática religiosa servisse de disfarce para a
injustiça.
Amós
denunciou uma sociedade em que o culto continuava acontecendo enquanto os
pobres eram esmagados e o direito era corrompido.
Sua palavra
continua sendo uma das mais contundentes advertências contra a separação entre
religião e responsabilidade social:
“Corra o
direito como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5,24).
O profeta
não condicionou a justiça à filiação partidária de quem sofria.
A fome não
pergunta em quem a pessoa votou. A falta de moradia não distingue esquerda e
direita. A corrupção não se torna aceitável porque é praticada por alguém que
compartilha nossas convicções religiosas.
Isso não
significa que a Bíblia forneça respostas prontas para todas as questões
econômicas e administrativas contemporâneas. Não fornece.
As
propostas políticas precisam ser examinadas com conhecimento, debate e
responsabilidade. Seus resultados devem ser avaliados, e suas limitações
precisam ser reconhecidas.
Mas a
complexidade das políticas públicas não elimina a responsabilidade moral de
perguntar quem sofre suas consequências.
Quando a
CNBB chama a atenção para a saúde, a educação, a segurança, o trabalho, a renda
e a superação da pobreza, aborda questões que afetam diretamente a vida das
pessoas.
Discutir
como enfrentá-las é legítimo. Transformar a simples preocupação com elas em
motivo automático de acusação ideológica é outra coisa.
A Igreja
não precisa apresentar uma plataforma partidária para lembrar que a justiça
importa.
Quando a
fé é sequestrada
O
crescimento de discursos religiosos que associam a conquista do poder político
à realização de um projeto divino exige discernimento.
Em
determinados setores influenciados pela chamada teologia do domínio, a
participação política pode assumir um significado que vai além do serviço
público: torna-se parte de uma estratégia de hegemonia religiosa e cultural.
É
necessário reconhecer a diversidade do mundo evangélico brasileiro. Nem todos
os conservadores compartilham essas ideias, e nem toda participação política de
inspiração cristã representa uma tentativa de impor a fé à sociedade.
Ainda
assim, existe um perigo real sempre que a religião passa a ser mobilizada para
proteger um projeto político de questionamentos.
Nesse
cenário, documentos religiosos deixam de ser avaliados pelo que efetivamente
dizem. São julgados conforme sua proximidade ou distância em relação a
determinado campo político.
O resultado
é uma inversão preocupante: em vez de a fé examinar a política, a política
passa a determinar quais partes da fé podem ser ouvidas.
A Escritura
se torna seletiva. A consciência fica subordinada à lealdade. E o Evangelho
corre o risco de ser reduzido a uma linguagem religiosa destinada a mobilizar
eleitores.
A pergunta
que precisamos fazer não é apenas se a Igreja está sendo usada por algum
partido.
É também se
estamos permitindo que nossas preferências políticas determinem aquilo que
conseguimos ouvir quando a Palavra de Deus nos confronta.
O
arrependimento começa em casa
Como pastor
luterano, não escrevo estas linhas para reivindicar superioridade moral sobre
católicos, pentecostais, evangélicos conservadores ou qualquer outro grupo.
A Igreja
inteira precisa examinar sua relação com o poder. Nenhuma tradição cristã está
imune à tentação de confundir seus interesses com a vontade de Deus.
A teologia luterana nos recorda que somos simultaneamente
justos e pecadores. Isso vale para cada um de nós, para nossas comunidades e
para nossas instituições.
Por isso, a crítica à instrumentalização política da fé
precisa começar também dentro de nossas próprias igrejas.
Não basta denunciar a manipulação religiosa quando ela
acontece entre nossos adversários. Precisamos reconhecê-la quando aparece entre
nossos aliados, em nossas comunidades e até em nossos próprios discursos.
Não basta exigir honestidade dos políticos de quem
discordamos. A mesma exigência deve valer para aqueles em quem depositamos
nossa confiança.
Não basta falar da dignidade humana quando isso confirma
nossas convicções. Precisamos estar dispostos a defender essa dignidade também
quando ela nos desafia.
O arrependimento cristão não é uma arma para condenar os
outros. É, antes de tudo, o reconhecimento de que também nós precisamos ser
confrontados pela Palavra.
A cruz acima dos projetos de poder
A reação de setores da direita evangélica ao documento da
CNBB revela uma questão que ultrapassa as eleições de 2026: a dificuldade de
preservar a liberdade da consciência cristã diante da pressão das lealdades
políticas.
Uma Igreja fiel ao Evangelho não precisa ser partidária para
ser profética.
Não precisa apoiar um candidato para denunciar a corrupção.
Não precisa aderir a uma ideologia para defender os pobres. Não precisa
transformar suas convicções em programa de governo para lembrar às autoridades
que o poder tem limites e que a justiça importa.
A Igreja pode dialogar com diferentes correntes políticas,
reconhecer contribuições concretas e criticar decisões equivocadas. Mas não
deve entregar sua consciência a nenhum projeto de poder.
Nenhum partido é o Reino de Deus.
Nenhum governante é o Cristo que morreu e ressuscitou.
Nenhuma eleição é a batalha final da história da salvação.
A cruz nos chama a desconfiar de toda pretensão humana de
poder absoluto, inclusive daquela que se apresenta revestida de linguagem
religiosa.
E nos chama a reconhecer que a fidelidade cristã não se mede
pela proximidade com os vencedores, mas pela disposição de seguir Cristo no
caminho do serviço, da verdade e do amor ao próximo.
Que a Igreja no Brasil, católica e evangélica, luterana e
pentecostal, possa recuperar a liberdade de consciência necessária para
examinar criticamente todos os projetos políticos, inclusive aqueles que
parecem falar em seu nome.
Que possamos distinguir os dois reinos sem abandonar nossas
responsabilidades no mundo, preservar a distinção entre Lei e Evangelho sem
torná-la uma abstração e redescobrir a teologia da cruz como crítica permanente
à sedução do poder.
E que, diante das eleições de 2026, não permitamos que
slogans partidários ocupem o lugar do discernimento cristão.
A palavra de Amós continua diante de nós, não como
propriedade de uma ideologia, mas como uma exigência que alcança todos os que
invocam o nome de Deus:
“Corra o direito como as águas, e a justiça como um
ribeiro perene.”
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